Princípios e Propósito da Vedanta - (Part 2)

Centro Ramakrishna Vedanta - BH
09.04.22 07:54 PM Comment(s)

​ Princípios e Propósito da Vedanta - (Part 2) 


Swami Paramananda (1884-1940), um discípulo de Swami Vivekananda, foi um dos pioneiros na divulgação da Vedanta no Ocidente

 Este texto é tradução do original em Inglês “Principles and Purpose of Vedanta” edição de 1910

A Relação do Homem com Deus -


De acordo com o Vedanta, esta realização de Deus ou reconciliação com Ele, é a meta da vida humana; mais ainda, é nosso direito inato. O esquecimento de nossa verdadeira natureza, que é divina, é a fonte de todo o sofrimento. Não há diferença real entre Jivatman (ser individual) e Paramatman (Ser Supremo), exceto que o indivíduo cobriu-se de limitações na forma de nome, forma e várias qualidades, enquanto que o Ser Supremo mora além destas. É o mesmo espírito consciente que existe em ambos; apenas que em um caso ele brilha parcialmente, devido às limitações, enquanto que no outro ele brilha livre e completamente. Portanto quando pela pureza e sabedoria o homem encontra seu Ser real, então este véu cai e homem e Deus tornam-se um e inseparáveis. “O conhecedor de Brahman (Verdade) torna-se um com Ele;” ou como Jesus disse, “Eu e meu Pai somos um”. Esta relação do homem com Deus tem sido claramente estabelecida em um dos Upanishads assim: “Dois inseparávei pássaros de plumagem dourada estão sentados na mesma árvore; um deles come os frutos da árvore, algumas vezes doces e outras vezes amargos; o outro pássaro, não provando os frutos, senta-se logo acima como uma testemunha, calmo, majestoso e mergulhado em sua própria glória. Assim também o Jiva (Ser individual) e Deus (Ser Supremo) estão sentados na árvore da vida. O Jiva, depois de provar os diferentes frutos da experiência, doces e amargos, e sofrendo com sua própria impotência, torna-se perplexo; mas quando ele olha para o outro pássaro – o Senhor, contempla Seu poder e realiza que eles são realmente um, então seu sofrimento e ilusão desaparecem. Esta visão do Ser remove todo sentido de dualidade e o Único brilha só como o infinito, onipotente Ser. O homem jamais será subtraído de seu direito por nascimento. Nenhuma quantidade de más ações jamais poderá destruí-lo. Suas más ações podem causar ilusão e fazê-lo sofrer, mas depois de passar por muitas experiências, doces e amargas, com certeza ao final encontrará sua divindade e estará livre de toda a escravidão.

Lei do Karma - 


Apesar de que todos nós possuímos o mesmo germe da divindade dentro de nós, não somos todos iguais. Qual a causa destas diferenças? Por que uma pessoa nasce feliz e a outra miserável, uma é inteligente e a outra estúpida? A diferença está no grau de manifestação ou desenvolvimento do mesmo divino poder, que faz alguém grande em sabedoria e o capacita a ir através das variadas condições da vida com coragem e serenidade, enquanto outro, cuja mente está coberta por um véu, constantemente comete erros e sofre. Deus não envia felicidade para uma alma e sofrimento para outra arbitrariamente. 


“O Todo-Penetrante não compartilha nem do mal ou do bem de qualquer criatura. A sabedoria está coberta pela ignorância, assim os mortais são iludidos.”


Os Hindus não culpam uma Providência invisível por todo sofrimento neste mundo, mas o explicam através da lei natural de causa e efeito. Se um homem nasce afortunado ou infeliz, deve haver alguma razão para isto. Se, contudo, não podemos encontrar a causa para isto nesta vida, deve ter ocorrido em alguma existência prévia, pois nenhum efeito é possível sem uma causa. Todo o bem que chega a nós é o que ganhamos através de nosso próprio esforço; e qualquer mal que haja é o resultado de nossos próprios erros passados. Como nosso presente tem sido moldado pelo nosso passado, assim também nosso futuro será moldado pelo nosso presente. Isto trás grande esperança e conforto, pois o que nós mesmos fazemos, também podemos desfazer. Por isso, ao invés de nos afligirmos sobre os erros passados, se dirigirmos nossas energias atuais com um anelo de todo o coração para neutralizar os resultados das ações passadas, podemos fazer nosso futuro melhor e mais brilhante. Esta é a lei do Karma, que levando em consideração todas as diferenças entre os seres humanos como algo natural, não faz de Deus parcial ou injusto. 

Recompensa ou Punição -


A ideia de recompensa ou punição também surge desta lei. O que plantamos, devemos colher. Não pode ser de outro modo. Uma macieira não pode ser produzida de uma semente de manga, nem uma mangueira de uma semente de maçã. Se alguém gasta toda sua vida em maus pensamentos e más ações, então é inútil para ele procurar a felicidade para depois desta vida, pois nossa vida futura não é uma questão de acaso, mas ela virá como reação (ou resultado) de nossa ação atual. Da mesma forma um homem de ações virtuosas deve colher como seu resultado a felicidade, que ninguém pode tirar dele. A natureza do pecado, que pode ser definida como a soma total de todos os pensamentos e ações egoístas e malvadas, é fazer o véu que nos separa de Deus mais espesso. A natureza da virtude é fazer deste véu mais e mais fino. E como Deus é a fonte de toda bem-aventurança, o primeiro (pecado) deve trazer inevitavelmente sofrimento físico e mental enquanto que o segundo (virtude) deve trazer paz e felicidade. 


Não devemos, contudo, perder de vista o fato de que todas as ideias de recompensa e punição existem no plano da relatividade e transitoriedade. Nenhuma alma pode jamais ter a danação eterna através de suas finitas más ações; pois a causa e o efeito devem ser sempre iguais. Assim vemos que através do bom senso a teoria da perdição eterna e do paraíso eterno é impossível e ilógica, visto que nenhuma ação finita pode criar um resultado infinito. Por isso, de acordo com a Vedanta, a meta da humanidade não é prazer ou dor temporal, mas Mukti ou liberdade absoluta e cada alma está consciente ou inconscientemente marchando em direção a sua meta através das várias experiências de vida e morte.